Logo no início do meu mandato como eurodeputado, em outubro de 2024, alertei para a possibilidade de cortes severos na política de coesão. Os do costume, por mera partidarite aguda, acusaram-me de alarmista e até afiançavam que tinham garantias da Comissão de que assim não seria. Hoje, os cortes estão à vista de todos e, felizmente, já todos reconhecem que têm de ser revertidos.
Um mês antes, em setembro de 2024, questionei formalmente a Comissão Europeia quanto ao processo de privatização da SATA. Defendi transparência, clareza e informação. Uma vez mais, os do costume vieram logo a terreiro procurar justificar a opacidade com responsabilidade e acusaram-me de querer criar ruído e prejudicar os Açores. Hoje, sabemos que a Comissão Europeia exige o reembolso de parte do auxílio estatal, que o Governo Regional tentou ocultar isto dos Açorianos, os quais, como sempre, serão chamados a pagar a fatura.
Já quando, no último trimestre do ano passado, a propósito da anunciada saída da Ryanair, alertei para os impactos da instabilidade no mercado da aviação nos Açores, uma vez mais surgiu o coro do costume com o intuito de desvalorizar o alerta e atirar areia para os olhos dos Açorianos. Entretanto, a Câmara do Comércio de Ponta Delgada estima que a saída da Ryanair possa representar um impacto entre 144 e 166 milhões de euros na economia da Região. E, meses depois do anúncio do fim da operação, para além da inexistência de qualquer sinal de solução, temos o apelo pungente e acrítico para não ceder ao “pessimismo”, como se a política fosse um exercício de motivação pessoal. Mas governar não é fazer coaching. É antecipar riscos, preparar respostas e agir a tempo.
A verdade é simples: quando se fazem perguntas e alertas, não é por partidarite, mas por dever e responsabilidade. Agora, quem vive em negação acha sempre que o outro está errado. O problema, porém, é que a realidade acaba sempre por se impor.
As recentes declarações de Paulo Rangel sobre o uso da Base pelos EUA são preocupantes. Um aliado não pode fazer tudo, como quer e quando quer. Ao Governo exige-se firmeza, clareza e conhecimento acerca dos compromissos assumidos. E exige-se, sobretudo, que não subalternize a verdade à, pelos vistos, irresistível vontade de agradar ao projeto de autocrata de Washington.
Já passaram quatro anos desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia. Milhares de mortos. Cidades destruídas. Famílias separadas. Esta semana, no Parlamento Europeu, voltámos a ouvir o Presidente Volodymyr Zelenskyy e a reafirmar o nosso compromisso com o povo ucraniano e com o seu direito à liberdade e à adesão à UE.
A Europa não pode vacilar. O que está em causa é também a sua própria segurança e a sua credibilidade internacional. Também por isso não podemos aceitar com normalidade a participação da Comissão Europeia no chamado “Board of Peace”, promovido por Donald Trump, sem total clareza quanto ao mandato e ao enquadramento dessa presença. Apresentei, com outros colegas, uma pergunta formal à Comissão. A política externa não se faz em zonas cinzentas.
Deputado do PS/Açores no Parlamento Europeu